É um espetáculo, mas lembra uma conversa entre amigas durante a escolha de um look, reunião que ocorre no quarto de diversas mulheres antes de cada evento e se encerra apenas quando já não é mais possível enxergar a cama sob vestidos, blusas, saias, calças e lingeries. Em cartaz no Teatro Leblon, no Rio, “Amores, Perdas e Meus Vestidos” leva o público para dentro do closet de quatro mulheres, que recordam passagens de suas vidas e expõem questionamentos evocados por suas peças de roupa. Sucesso off-Broadway, a peça – atualmente encenada também na Inglaterra, na Argentina e no Canadá – tem elenco estelar em sua montagem brasileira, formado por Arlete Salles, Carolina Ferraz, Taís Araújo e Ivone Hoffman. Apesar da familiaridade com os espaços do closet, reproduzido no cenário, e do palco, as atrizes não escondem uma certa sensação de nudez em cena.
“A experiência tem sido tensa, mas prazerosa a cada final de espetáculo. Como a personagem e eu somos quase a mesma pessoa, é como se eu estivesse ali, me colocando e contando a história, sem o artifício teatral da máscara, atrás da qual o ator se esconde e protege. Agora entendo a sensação de quem faz stand--up comedy e valorizo esses atores”, comenta Ivone.
Arlete Salles relata sensação semelhante: “Pela primeira vez, estou me apresentando no palco sem a ‘quarta parede’ fictícia (a que separa o público do palco) e sem o escudo de uma personagem. Teatro é contar histórias, mas esse espetáculo é indiscutivelmente verdadeiro. São relatos femininos que eu conto olhando nos olhos do espectador. Tem sido uma grande experiência, onde há troca de carinho e cumplicidade”.
Não é difícil entender a sensação de vulnerabilidade. Apesar de não terem sido extraídas de experiências pessoais das atrizes, as reflexões levantadas e histórias narradas no espetáculo são reais e comuns a milhares de mulheres e, portanto, podem ocorrer com qualquer uma delas – ou mesmo com os homens. Afinal, quem não lembra de uma ocasião especial ao deparar-se com determinada roupa?
“Antes do meu primeiro baile de ‘adultos’, meu pai me deu dois vestidos lindos! Lembro até hoje: um azul e outro vermelho. O mais incrível é que eles ainda me servem, acredita?”, recorda Carolina Ferraz. “Acho que o público se identifica, de modo geral, com todas as histórias. Minha manicure assistiu e me disse: ‘Eu sou todas elas!’”. Taís Araújo reforça o time das que não esquecem o primeiro traje de gala: “A minha lembrança mais forte é dos vestidos que usei na festa de 15 anos da minha irmã. Eu tinha 7, mas fiz questão de ter dois vestidos como a aniversariante! As mulheres gostam da peça porque são histórias que podem acontecer com elas, e os homens, porque elas podem acontecer com sua mãe, irmãs, mulheres e amigas”, diverte-se.
Dirigida por Alexandre Reinecke, “Amores, Perdas e Meus Vestidos” é uma adaptação de Adriana Falcão para o espetáculo “Love, Loss and What I Wore”, escrito pelas irmãs Delia e Norah Ephron, roteiristas do filme “Julie & Julia”, e inspirado no best- -seller homônimo de Ilene Beckerman, que ainda não foi lançado no Brasil, mas já vendeu mais de meio milhão de cópias no mundo inteiro. Uma prova de que determinados aspectos da alma feminina são mesmo universais.
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